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Arghus: “A Académica Tem Que Pensar Muito Grande”

Atualmente ao serviço da Académica, Arghus Bordignon, já brilhou na Liga dos Campeões. Com passagens pelo Braga, Panetolikos e Excelsior, foi no Maribor que pisou alguns dos maiores palcos do futebol europeu. O central brasileiro aborda o seu passado e faz projeções para o futuro. Conta como se tem mantido em forma durante a quarentena e fala da sua experiência em Coimbra.

Como têm sido estes dias em termos de adaptações ao treino?

Não está a ser fácil ficar em casa. Eu vejo na minha família também. Na maioria das vezes estou a viajar – jogos fora, concentrações, estágios – e não damos muito valor à família. Chega a um momento em que fica difícil. Coisas básicas como treinar, espairecer a cabeça… Eu vejo nos meus filhos. Eles estão acostumados a ir para a escola que agora não têm. Nem televisão temos, nem sabemos quando vamos sair desta situação. No meu trabalho, estávamos a jogar bem, num bom ritmo e agora voltar, se voltarmos… é o mais complicado, neste momento. É preciso foco e ser forte psicologicamente. Mas, acho que vai correr tudo bem.

A Académica deu algum plano de treino aos jogadores?

Sim, claro. Todos temos planos. Recebo planos do meu treino. Tenho treinos que posso fazer em casa. Normalmente, a cada dois dias eles mandam mensagem, de manhã e à tarde, para dizer o nível de esforço que temos feito nos treinos. Fazem demonstrações e estão preocupados. É que não acabou o campeonato. Não estou a pensar que são férias. Estou sempre focado.

Como é que o futebol surgiu na tua vida?

Desde miúdo que comecei nas camadas jovens do Grémio, uma equipa muito boa do Brasil. Comecei com 9 anos. De lá fui para o Atlético Paranaense e profissionalizei-me no Juventude. Depois de ter andado pelo interior do Brasil, rumei à Eslovénia.

Foto: Académica/OAF

Quando é que percebeste que podias ser profissional?

Acho que foi no Juventude. Joguei o meu último ano de juniores lá. Pensei que tudo aquilo que fazia nas camadas jovens me poderia levar para um patamar superior. Por ser um central esquerdino, tendo em conta que é difícil encontrar um canhoto que saiba sair a jogar, eu comecei a pôr na cabeça que podia trazer coisas diferentes, que a equipa não tinha. Quando cheguei à Eslovénia, o próprio treinador (Darko Milanič) tinha sido central da seleção e deu-me muitas dicas. Depois, no Braga, o treinador, Paulo Fonseca, também era um central. A maioria dos meus treinadores eram centrais. Também no Excelsior da Holanda, o treinador, Mitchell van der Gaag, era um central. Então, eu tive sempre boas dicas.

Achas que a liderança associada à posição de central permite trazer coisas diferentes ao jogo?

Acho que sim. O futebol mudou muito desde que comecei a jogar. Hoje em dia, os centrais, e até os próprios guarda-redes, têm que saber sair a jogar e eu sempre gostei disso. Ter a bola, participar no jogo, não estar ali só para bater. Acho que ser um jogador técnico me ajudou muito. É preciso não querer estar ali por estar. Eu amo o que faço. Trabalho afincadamente para, se for mau em algum aspeto, melhorar. Se no jogo perder um lance aéreo, vou treinar a semana toda para melhorar. Sou muito focado nisso. Só assim é que, com 32 anos, posso dizer aos meus filhos que atingi algumas coisas bonitas no futebol. Acho que isso é importante. Às vezes lembram-me como “aquele maluco todo tatuado, mas que jogava bem”.

Capacidade de jogo aéreo e timing de desarme. Em construção, capacidade de desequilíbrio através da condução. Escolherias algumas destas características para te definir enquanto jogador?

Acho que sim. Foram bem escolhidas. Fico até feliz de ouvir isso e saber que as pessoas gostam do que eu faço. É como já disse, gosto de ter a bola. Também não tenho medo dos duelos aéreos, bem pelo contrário, adoro. Um central tem que ser inteligente. Gosto muito da forma como a minha equipa está a jogar neste ano, em termos de construção de jogo. Quando temos a bola não a entregamos facilmente ao adversário. Depois, nos duelos com o avançado, penso que ele vai ter que me respeitar do início ao fim do jogo. Quem vai mandar no jogo sou eu e não ele.

Saber quando jogar simples é importante?

No Brasil, no Rio Grande do Sul, estava numa zona muito colada à Argentina e ao Uruguai e, por isso, havia um estilo de jogo mais aguerrido, mais forte, com mais contacto, mas quando cheguei à Europa percebi que não era só isso. Era preciso mais técnica. Uma coisa liga-se à outra. Há jogos em que é preciso mais uma coisa e jogos em que é preciso outra. Depende daquilo que o adversário nos dá.

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Foto: Blog do Moreno

Estás quatro épocas no Maribor (Eslovénia) e em termos de títulos nacionais ganhas tudo.

Foram nove títulos em quatro anos. Ainda hoje sou muito lembrado no clube. Tenho lá uma bandeira e tudo. Fico muito feliz por isso. Toda a gente diz que devia terminar a carreira lá.

Achas que isso é possível?

Acho que sim. Neste último mercado de transferências falei com o treinador, mas eu tenho um projeto de família. Quero que os meus filhos falem português, eu quero que fiquem por aqui na escola. A minha esposa gosta da cidade de Coimbra e gosta do país. Eu estou muito familiarizado com Portugal e quando a Académica me apresentou um projeto de subida de divisão não pensei duas vezes. Vi que era um bom projeto. Ainda acho que, mesmo que não suba, a Académica é um bom projeto, embora o clube tenha muito por onde crescer. O clube tem um nome muito grande em Portugal, mas acho que está parado e não pode, estacionou. Em 2015/16, pelo Braga, joguei contra a Académica e era Primeira Liga. A Académica, sendo o primeiro clube a vencer a Taça de Portugal, tem que pensar muito grande.

Curiosamente, nessa época, 2015/16, fazias parte da equipa do Braga que empatou 0-0 com a Académica e que consumou a descida de divisão por parte da Briosa. Alguém se meteu contigo por causa disso?

Eu lembro-me. Não penso muito, porque o futebol é muito rápido, temos que amar e respeitar a equipa em que estamos a jogar. Na altura estava no Braga e nunca pensei que viria para a Académica. Hoje em dia estou na Académica e luto a cada dia pela equipa. Eu sou assim. Vou para o jogo e até posso estar lesionado, mas vou dar 110%. É por isso que amo o que eu faço. Nunca deixei de treinar com um sorriso na cara, com felicidade, com dor. Tive muitas lesões na minha carreira e que me atrapalharam muito. No momento em que o jogador for para o treino sem ter vontade, acabou-se.

Foto: Ekipa – Svet24

É ao serviço do Maribor que pisas palcos como o White Hart Lane, Ramón Sánchez Pizjuán, Stamford Bridge… Qual é a sensação?

Não há como explicar. É única. É um sonho de criança jogar na Liga dos Campeões. Consegui fazer isso em algumas ocasiões. Foram grandes duelos com avançados de classe mundial – Drogba, Diego Costa, Adebayor, entre outros. Pessoas de todo o mundo iam assistir e eu tinha que estar focado. Não queria ser motivo para falarem mal. Queria jogar aquele jogo e que fosse o meu jogo. Independentemente do resultado, tinha que ir focado para as coisas correrem bem. Queria fazer bons jogos. Também me lembro de um duelo contra o Sporting, que na altura tinha uma equipa muito boa. Foram dois bons jogos. Joguei também contra o Schalke 04, que tinha um avançado muito bom, o Huntelaar. Às vezes penso nesses dias, no estádio, no aquecimento… são histórias que levo para a vida.

Em 2015/16 chegas ao Braga e ganhas logo uma Taça de Portugal.

Há 50 anos que o Braga não a ganhava. O presidente e o treinador falaram comigo antes de chegar. Precisavam de um jogador experiente. Na altura, tive outras propostas. Fui para o Braga porque queria vir para Portugal. Já cá tinha estado de férias. A minha família tinha gostado de Portugal. 3 anos de contrato, pensei que era um projeto de vida. Gostava de ter jogado muito mais jogos, mas fiquei muito feliz pela passagem pelo Braga, por ter ganho uma Taça de Portugal e por ter deixado o meu nome na história. Foi uma passagem curta, mas muito bem-sucedida.

Passaste pela equipa “B” do clube. Viste isso como uma despromoção?

O presidente queria que eu tivesse saído para uma equipa de menor dimensão e eu disse que não queria sair. Não tinha interesse em deixar Braga. Então ele disse que tinha que ir para a equipa “B”. Apesar de ele me ter dito aquilo como se fosse um castigo, disse-lhe que era tranquilo. Depois, acabei por rumar ao Panetolikos (Grécia).

Arghus despede-se de Braga e já tem destino - O Jogo
Foto: O Jogo

Jogaste com jogadores que já tinham passado pela Académica. Falaste com eles na altura de vires para o clube?

Sim. Quando estava na Grécia falava com o Marcos Paulo (colega de equipa no Panetolikos e na Académica) e, a brincar, dizíamos: “Para o ano vamos para a Académica”. Quando surgiu a proposta, fui a uma reunião e vi que estava lá o Marcos Paulo também. Tanto brincávamos que viemos os dois juntos para cá. Tudo que me foi dito sobre o clube, realmente, é o que é. A cidade é incrível. É um clube grande, um clube que, se quiser, pode ir lá para cima de novo. Basta pessoas investirem no clube. O clube tem tudo para crescer e estou muito feliz.

Achas que falta investimento financeiro na Académica?

Falta investimento. A Académica estacionou e nenhum clube pode fazer isso, muito menos um clube com esta grandeza.

Não tem sido um ano fácil, primeiro o furacão Leslie que levou a que a equipa tivesse que mudar de local de treino, agora a situação do Coronavírus…

É complicado. Quando eu cheguei, o treinador (César Peixoto) era muito bom. Foi ele que me trouxe para cá. Falou comigo, queria um central com as minhas características. Eu vim por causa dele também. Quando chegámos cá, não era aquilo que ele esperava que fosse o projeto da Académica, porque íamos treinar noutros campos, a própria saída dele… Depois veio um treinador (João Carlos Pereira) que não conhecia quase nenhum jogador. Existiram alguns problemas de estrutura, como, por exemplo, o tratamento do relvado do estádio e do campo de treinos. No entanto, temos que entender que futebol é mais do que isso. Temos que superar tudo. Aliás, este grupo é sensacional, é um dos melhores balneários onde já estive. Jogadores honestos e humildes. Toda a gente pode brincar com toda a gente. Tenho boas memórias desta época. Temos um grupo de jogadores muito bons. Por vezes, jogávamos muito melhor e não marcávamos.

Académica e Mafra empatam em Coimbra - O Jogo
Foto: O Jogo

Em termos de resultados, as coisas não correram bem com o primeiro treinador. A ideia de jogo de César Peixoto era muito utópica para a Segunda Liga?

Para a Segunda Liga, talvez. Contra equipas como o Farense que joga feio e ganha fica complicado. Só que a nossa tática era muito ofensiva e ficávamos expostos, mas é um treinador muito inteligente. Essa tática talvez seja mais para a Primeira Liga. Na Primeira Liga é muito mais fácil jogar do que na Segunda. Na Segunda é uma loucura, enquanto que, na Primeira, é tudo muito mais cadenciado.

Na Primeira Liga dá-se mais importância ao aspeto tático e na Segunda ao aspeto físico?

Sim. A Segunda Liga é objetividade. Algumas equipas, com dois ou três toques estão na área adversária para finalizar, mas a nossa equipa joga pelo controlo do jogo e pela posse de bola. Por isso, o nosso treinador atual, que também é um bom treinador, explora o lado fraco da outra equipa de acordo com os jogadores que tem no plantel. Nós treinamos isso e tem corrido bem.

O que mudou com a chegada de João Carlos Pereira?

Os jogadores começaram a sentir-se mais confiantes. Com César Peixoto tínhamos um modelo de jogo e se tentássemos mudar alguma coisa não podíamos, era aquele modelo. Agora temos dois ou três tipos de construção de jogo e, no jogo, podemos fazer o que quisermos. Se não der de uma maneira, vai da outra. Nós, jogadores, lemos o jogo e mudamos sem ser preciso o treinador falar. A confiança que ele nos passou ajuda muito.

O que faltou à Académica para, neste momento, estar nos lugares de subida?

É difícil dizer. Há jogos que devíamos ter ganho e não ganhámos. Se perdermos dois jogos seguidos já é uma crise. Faltou mais regularidade. Demorámos a encaixar enquanto equipa. Tínhamos bons jogos, mas não tínhamos resultados. Depois, começámos a ter bons jogos, jogos positivos, e resultados. Houve uma fase em que sofríamos muito poucos golos. Começámos a ganhar, a jogar bem, a treinar bem. Não chegámos mais alto, porque faltou um pouco de sorte. Há equipas que jogam feio, mas que conseguem marcar golos e nós não.

O teu contrato termina no final desta temporada. Por onde passa o teu futuro?

Gosto muito da equipa e do clube. Tenho o objetivo de continuar em Portugal, mas não posso dizer se isso vai acontecer. No entanto, com certeza que gostaria de ouvir a Académica, caso quisessem que eu continuasse. Vamos ver o que vai acontecer. Não sei se vamos conseguir subir. Acho muito difícil, mas é uma equipa que merece estar lá em cima. Precisa é dos investimentos necessários.

Diário As Beiras – Defesa-central Arghus já treinou e é reforço da ...
Foto: Diário As Beiras

O futebol é muito duro para os jogadores?

Vou sempre proteger os jogadores. É uma profissão boa, mas ingrata. Os adeptos veem as coisas com amor, com os olhos cheios de lágrimas se perdemos o jogo e ficam todos felizes se ganhamos o jogo. O jogador não faz um bom jogo e é criticado. Muitas vezes as críticas são injustas. Às vezes a imprensa leva o jogador ao fundo do poço e outras vezes mete o jogador no céu, mesmo que ele não mereça. O futebol envolve muitos negócios e muito dinheiro. Já assisti a situações em que os jogadores, por pertencerem a um determinado empresário, têm que jogar sempre. Os adeptos têm que amar sempre o seu clube, mas, por vezes, precisam de ver o lado humano dos jogadores. A família do jogador também sofre com isso e isso é pior que ver um adepto ou um presidente triste.

O apoio da família é importante?

Falo por mim, sem a minha família, não teria conseguido nada na minha carreira. Em momentos de lesões são eles que estão ali e em momentos de felicidade também. Acho que ninguém faz nada sozinho. O suporte vem da família.

Levas o futebol para casa?

Levo. Não consigo deixar o futebol da porta para fora. Não dá. Discuto futebol com os meus filhos e com a minha mulher. Às vezes, chego a casa e vejo o jogo de novo, até porque não sei se um dia não vou ser um treinador.

Qual o melhor momento da tua carreira?

Foi no Maribor. Joguei na Liga dos Campeões e na Liga Europa. No Braga ganhei mais um título. Na Grécia, recuperei a confiança. Este ano estou a dar seguimento a isso, jogando a alto nível e bem, feliz e sem lesões. Espero que aqui ainda seja o meu melhor momento.

Foto de destaque: Académica/OAF

Francisco Martins
Estudo Jornalismo e Comunicação e foi algures entre a escrita e o desporto que lá veio a ideia de poder vir a ser jornalista. Contar histórias, conhecer pessoas e relatar o que de especial há nelas. No fundo, dar aos outros coisas para falarem.

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